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Placar, Celso e eu

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 14/11/2015-01:26:20 Atualizado em 22/06/2017-21:19:07

O Celso Unzelte é o culpado.
Culpado por algumas coisas na minha vida.
Primeiro pela escolha do jornalismo. Difícil escolher uma profissão talvez para a vida toda aos 17 anos. Era 1992 e estava no 3º colegial. Final de ano teria de prestar vestibular. Sempre fui bem em matemática e física. Mas não me enxergava engenheiro ou algo do gênero. Gostava de ler - saía de casa toda quarta para comprar a revista Placar desde 1985 - mas daí a virar jornalista havia uma grande distância.
O Celso conheço há muito tempo, por laços familiares indiretos. Nas reuniões de família em São Paulo e depois Sorocaba, sempre nos encontrávamos na casa do meu tio. Viramos "primos". Anos mais tarde, como ele mesmo definiu, "primos por afinidade e colegas de profissão".
Voltando a 1992, lá na casa do meu tio em Sorocaba, lembro dele contando do belíssimo trabalho de pesquisa e reportagem que ele, PVC e equipe fizeram para uma Placar especial do Garrincha e da entrevista com Nilton Santos. Era o empurrão que faltava. Fim de ano, vestibular de jornalismo.
Me formei bem antes do Celso virar professor na Cásper Líbero. Mas aprendi muito do que sei hoje lendo o que ele e a Placar faziam: jornalismo. Nada de achismo. E ao longo desses mais de 18 anos que estou no TODODIA, se você viu algo diferente em cadernos especiais de esportes, saiba que é a influência que sofri do Celso e da Placar.
O Celso também é culpado pelo Rio Branco ter hoje sua história preservada.
Foi ele que - lá pelo final dos anos 90 - me pediu informações do Rio Branco x Corinthians de 1925. Pesquisei e não parei mais. E não vou sossegar até que o Rio Branco enfim tenha o seu almanaque. Como ele fez com o Corinthians e depois ajudou a fazer com o Palmeiras. A história de clubes brasileiros como nunca antes contada. O Celso é pioneiro nisso, e também de tudo isso dentro de um aplicativo, como ele fez recentemente do Corinthians. Escreveu outros livros, fez outros trabalhos importantes, mas os almanaques são um marco na preservação da história dos clubes brasileiros. Depois vieram outros.
Já que indiretamente me deu o trabalho de escrever a história do Rio Branco, pelo menos me presenteou com a "maravilhosa planilha mágica cheia de macros", que fez com que eu jogasse tudo o que tinha em Word do Rio Branco lá dentro (sim, deu muito trabalho) para que, como num passe de mágica, tivesse à disposição informações tão valiosas. Para você ter uma ideia, com um computador mediano como o meu, foram 24 horas ligado para que a "maravilhosa planilha..." listasse vitórias, empates, derrotas e gols de todos os jogadores do Rio Branco. Coisa de maluco. O Celso é um deles.
Foi o Celso o culpado também por eu gastar uma boa grana para comprar 885 edições da Placar e completar minha coleção. Ele trabalhava na revista e me presenteou com o telefone de um radialista que estava vendendo, lá em Poços de Caldas.
Não, o Celso não morreu. Tá vivinho. Corintiano de corpo e alma que sabe a diferença entre torcer e fazer jornalismo. Até voltou recentemente para comandar a Placar, um alento para uma revista que mudou de editora em meio a um processo de decadência que caminhava para determinar o seu fim.
Quando vi que a Placar publicou um pôster (tradição da revista para os campeões) do Corinthians 99% campeão brasileiro, tinha convicção que havia sido à revelia do Celso. Certeza confirmada com a saída dele da revista logo depois (a "gota d'água", segundo ele). Uma edição especial de um "quase campeão" não tem absolutamente nada de jornalismo. Aliás, não tem nada de nada.
A profissão que escolhi seguir há 23 anos, achava eu, não vivia do "quase". Não era pautada pelo número de curtidas, muito menos de compartilhamentos. Aquele jornalismo parece estar morrendo para dar lugar a um jornalismo pasteurizado, o jornalismo do Facebook. O da TV fechada igual à TV aberta. Tudo igual. Nada diferente. Mais achismo, menos jornalismo. Menos gente, mais barato.
Hoje talvez o Celso não conseguisse mais me empurrar mesmo que sem querer para o curso de jornalismo. Até porque, o que vale mesmo este diploma?