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Idolatria

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 18/08/2017-22:10:02 Atualizado em 18/08/2017-23:52:48

Você certamente tem um conceito de ídolo diferente do meu.
O meu, por exemplo, está longe de passar perto do conceito do Alonso, repórter aqui.
Outro dia o Alonso ficou indignado porque não acho o Hernanes um ídolo no São Paulo. E ficou mais indignado ainda quando o João Conrado, corintiano, que senta do outro lado da bancada onde trabalha o Alonso, não enxergava em Emerson um ídolo no Corinthians.
"Mas como, o cara fez dois gols na final da Libertadores e não é ídolo?", indignou-se, antes de fechar o semblante por alguns instantes, irritando-se ainda mais quando eu soltei que Rogério Ceni também não era ídolo no São Paulo.
Sim, essa última eu fiz só para irritar o Alonso, o fã número 1 do ex-goleiro em um raio de 50 quilômetros partindo de Piracicaba.
Mas ele também não gostou quando não consegui achar, além do Rogério, outros ídolos do São Paulo neste século. Meio sem convicção tentei forçar um Luis Fabiano, pela sua primeira passagem, mas logo desisti. Kaká cogitei, mas... não. Lucas, nem pensar, e essa última fez Alonso de novo se irritar. Talvez, mas só talvez, Lugano.
Aí veio o André, o fã número 1 do Phillipe Coutinho em um raio de 50 quilômetros partindo de Rio das Pedras. E cravou Dudu (esse de hoje, não o de antigamente) como ídolo no Palmeiras.
O conceito dele, deu para perceber, se assemelha mais ao do Alonso que do meu.
Do Barcelona a gente já sabe que não é, mas e do Santos, Neymar é ídolo? "Lógico" foi a resposta de bate-pronto de todos aqui. Será que tudo que envolveu sua saída não tirou sua idolatria junto à torcida? Neymar pode estar por exemplo no top-5 dos mais importantes jogadores da história do Santos, mas "apenas" isso não o credencia ao posto de ídolo.
Não são apenas gols e títulos que colocam alguém nesse pedestal. Roberto Rivellino, formado nas fileiras do Parque São Jorge, foi por muito tempo e acredito que é até hoje um ídolo da torcida do Corinthians, onde ganhou só um inexpressivo Rio-São Paulo, e na canetada, em 1966. E ainda deixou o clube pela porta dos fundos, em meio àquele interminável jejum.
Pelé jogou muito mais bola e ganhou mais títulos do que Zico. Mas tenho a impressão que o segundo é mais idolatrado pela torcida do Flamengo do que o primeiro pela do Santos.
Difícil essa história de ídolo porque, para ser tal, precisa criar uma identidade com a torcida que o cerca, e não existe uma fórmula pronta para isso. Precisa ter aquele "algo a mais". E não são apenas vitórias, títulos, gols, cestas... Isso ajuda, mas sem esse "algo a mais" ninguém passa a ser venerado por outrem.
"A idolatria é relativa", diria Cabelo, o jornalista-que-queria-ser-filósofo.
É isso. E a idolatria também é algo individual. Eu posso enxergar esse "algo a mais" em alguém que você não enxerga, e vice-versa, o que não significa que hoje não banalizaram esse conceito e a palavra é usada para qualquer mané que marque dois gols de pênalti em um jogo contra o lanterna.
Talvez o meu conceito máximo de idolatria seja a atingida por Maradona. Venerado por duas torcidas, Boca e Napoli, e pelos argentinos. Um cara extremamente controverso, cheio de coisas mal resolvidas internamente, mas que literalmente é adorado como uma divindade.
Fez muitos napolitanos torcerem contra a Itália em uma semifinal de Copa - na Itália - porque do outro lado estava ele. Levou argentinos a criarem uma igreja para a sua adoração. E recusou muito mais dinheiro, ainda jovem, do River Plate porque amava e queria jogar em La Bombonera, onde até hoje é possível vê-lo em camarotes rodando a própria camisa e cantando quando o azul-amarelo está em campo, cena impensável com qualquer outro personagem desse nível.
Maradona foi gênio e tem grandes serviços prestados a essas três camisas. Mas sem a paixão, com altas doses de loucura, mas paixão, não teria a idolatria que tem hoje. Essa é a mistura que deu certo para ele, mas que não é uma fórmula porque outros são ídolos com outros tipos de características.
Maradona é um dos esportistas mais complexos da história.
Como complexo é definir quem é e quem não é ídolo.

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