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Nostalgia

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 25/08/2017-23:45:11 Atualizado em 25/08/2017-23:46:57

Eu tenho traços nostálgicos. Acho que o mundo de hoje encaminha a humanidade para a insanidade. Por isso prefiro muitas das coisas de um passado não tão distante. Estou falando de logo ali, anos 80. Coisas mais simples, nada parecido com o emaranhado de exigências do mundo moderno.
Mas até a minha nostalgia tem limite.
Parei para pensar como era dura a vida para quem gostava de futebol nos anos 80. Como a gente sofria! Tenho só poucos mais de 40 anos, mas parece que eu vivi quase beirando a Idade da Pedra, impressão que se confirma com a expressão de quem, com metade da idade, escuta como era.
Jogo na TV de final de semana era apenas um. Que alegria quando aquele um era de seu time. Geralmente, sábado à tarde. Os jogos de domingo, apenas no rádio, e dependendo do rival do seu time ou o local do jogo, era difícil até de encontrar alguma emissora transmitindo aquele que você queria ouvir. A solução muitas vezes era esperar, durante a transmissão, uma voz de fora gritando "olha o gol!", e viver segundos de apreensão até o anúncio de quem era.
Cresci ouvindo jogo em rádio. Era a única opção. E como os clássicos, via de regra, eram aos domingos, raros eram o que a TV transmitia.
Hoje todos os jogos das rodadas de estaduais e das duas principais divisões do Brasileiro têm transmissão ao vivo. Se você não assina o Premiere, não é nada difícil encontrar o sinal pela Internet. E se você torce para algum clube que não está neste universo, pode ainda encontrar transmissões ao vivo por Facebook ou pelo Mycujoo, só para dar dois exemplos.
Campeonatos internacionais? Pouquíssimos. Lembro quando a Band começou a transmitir o Campeonato Italiano nas manhãs de domingo, com comentários de Silvio Lancelotti, que me impressionava pela capacidade de identificar dirigentes e personalidades que apareciam durante as transmissões. Não deixava uma passar em branco.
Era maravilhoso. Dava para ver Maradona-Careca no Napoli. Ou o trio holandês Van Basten-Gullit-Rijkaard no Milan. Ou os alemães Matthaus-Klismann-Brehme na Inter. Mas era um joguinho por semana. Algum tempo depois, a Cultura, com o José Trajano comentando, se aventurou pelo Campeonato Alemão nas manhãs de sábado.
Hoje você vê o jogo que quiser de qualquer uma das grandes ligas da Europa. Seja pela TV, seja pela Internet. Dá para preencher a semana com média de dois ou três jogos não por semana, mas por dia.
Quando você, por algum motivo, não escutava no rádio o jogo de domingo, ou o pós-jogo, era um sofrimento para conseguir simplesmente saber o resultado. Caçava-se algo nos poucos canais abertos que existiam, mas era ou Band ou Globo que davam um pouco mais de atenção ao esporte - SBT, nem pensar.
Como a Band passava esporte o dia inteiro aos domingos, à noite nada. E a Globo, só nos Gols do Fantástico, mas aí já era horário de criança ir dormir. Sim, acredite você ou não, às vezes a gente ficava sabendo de um resultado no jornal impresso do dia seguinte.
Hoje não precisa nem explicar como é.
Em casa, durante muito tempo, era quase impossível sintonizar a Band, o "Canal do Esporte". A imagem era péssima, cheia de chuvisco e interferência. Foi assim, por exemplo, que vi a final do Brasileiro de 1991, Bragantino x São Paulo, exclusividade da Band (tenho até hoje o VHS daquela final, com aquela imagem terrível).
Imagine o dia em que meu pai comprou uma parabólica e sepultou aquela maldita antena. Era o canal 5 na parabólica. Não dava nem vontade de desligar a TV ou tirar da Band.
Hoje, qualidade de imagem nem entra no debate. É HD, full HD, 4k...
Quando queria ver algum jogo importante em São Paulo, daqueles que não dava para deixar para comprar ingresso no dia, tinha de arrumar alguém durante a semana para pegar fila e comprar. E depois arrumar um jeito de pegar esse ingresso porque não dava para arriscar mandar pelo Correio.
Hoje compra-se sentado, em frente ao computador, e dependendo do caso, ele já sai na sua impressora ao lado.
Isso tudo nem faz tanto tempo assim.
A gente sofria, mas nem percebia. Só percebe agora.
Sem nostalgia, mas melhor mesmo seria ter toda essa fatura de hoje, só que lá nos anos 80.