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Que m...

Opinião

Claudio Gioria | Jornalista - 31/08/2017-23:51:40 Atualizado em 31/08/2017-23:48:32

Voltei a caminhar.
Estresse e sedentarismo somados àqueles tradicionais exames de sangue passando dos limites aceitáveis me levaram a voltar a caminhar, antes que apenas caminhar já não resolva mais.
Sem desculpas que não dá tempo. Tanto que achei tempo. Logo depois da uma da tarde, o pior horário possível, mas o horário possível. Para ganhar tempo, nada de pegar o carro e seguir a um lugar específico. Saio de algum lugar perdido por aí e o destino é sempre a minha casa.
Preciso ocupar a minha cabeça durante as caminhadas. Nas primeiras delas, coloquei a cabeça para funcionar e lembrar dos campeões paulistas a partir dos anos 30 (para trás ainda é meio complicado lembrar), do Brasileirão a partir de 1971, dos finalistas, dos resultados das finais, dos autores dos gols...
Em meio a esse turbilhão de informações, me distraí. E quase paguei o preço por isso.
Como tem m... na rua!
Esta semana resolvi abandonar minhas lembranças futebolísticas e resolvi contar. Sim, contar as m... Uma por uma, por todo o trajeto. Não a unidade, o que seria praticamente impossível, mas o conjunto de cada obra.
Deixei meu filho na escola, minha esposa ficou com o carro e voltei a pé para casa. Comecei então a contar quantos montes de fezes encontrava pelo caminho. Adotei o critério "fezes distintas", teoricamente feitas por cachorros ou gatos diferentes. Cada montinho, um, dois, três... Contava apenas as obras da calçada na qual andava, nada de ficar avistando algo do outro lado da rua.
A cada graminha mais bem cuidada, a cada árvore, a cada canteiro, a contagem disparava. Sim, temos muitos animais abandonados pela rua, mas alguns indícios apontavam que muitas daquelas fezes eram de animais que passeavam com seus "responsáveis".
Um desses indícios foi quando entrei no Centro Cívico. Lá, animais são proibidos. Pressupõe-se que apenas animais abandonados, desacompanhados, entrem lá, afinal os portões ficam abertos. E, logicamente, façam suas necessidades caso lá tenham vontade. Andei perto de mato, na pista de atletismo, em volta dos ginásios, perto de árvores. Nenhum montinho.
Passei também pelo Centro. Quando cheguei, minha conta já era 89, em pouco menos de uma hora de caminhada. Saí do Centro e a conta seguiu em 89. Precisamos levar em conta que lá a limpeza é maior que nos bairros, mas também que ninguém passeia com seus cachorros no calçadão de Americana.
Quando voltei para ruas menos movimentadas, a contagem voltou a ganhar corpo. Em uma delas, a Tarquinio Benencasse, não era possível nem desviar, então andei pela rua, e segui contando. Resolvi entrar em uma pequena pracinha. Mais quatro logo de cara.
Enfim, cheguei em casa. Caminhada de 1h13.
115 montes de m..., o último deles na árvore em frente à minha casa (não era do meu cachorro).
Cen-to-e-quin-ze!
A cada 38s caminhando, um monte de m... De todos os tipos. Já seco pelo tempo exposto ao sol, recém-chegado, escondido, já pisoteado (quem nunca?)...
Como foram uns dez minutos no Centro Cívico e outro tanto desse pelo Centro sem encontrar um único montinho, a conta cai para 27s levando-se em conta apenas a caminhada pelos bairros de Americana, onde os donos costumam caminhar com seus cães. Bairros, é bom lembrar, de diferentes classes sociais.
Antes de caminhar eu até pensei em fotografar um por um. Mas não ia dar tempo (lembra que a minha caminhada acontece no único tempo possível?) e me questionei a utilidade de fazer isso. Parei apenas para fazer duas fotos, as que você vê ali acima, porque as cenas eram absurdamente idênticas em dois pontos distintos da cidade. Em duas praças, placas "Proibido Jogar Lixo e Entulho - Lei Nº 2137/87 PMA". No chão, exatamente abaixo da placa, pasmem ou não, lixo e entulho...
Aí pensei que a m... é muito maior do que a gente imagina.
Porque Americana já teve também, entre 2003 e 2007, uma lei que multava quem não recolhia as fezes de seu cachorro na rua. Ouvi três pessoas que poderiam ter informações sobre eventuais multas aplicadas (R$ 100 era o valor). Nenhuma delas tinha, o suficiente para ter sérias desconfianças de que alguém um dia tenha sido multado.
Afinal, era uma lei cuja aplicabilidade/fiscalização é daquelas das mais improváveis.
Naquele mesmo dia dos cen-to-e-quin-ze, no final de tarde passei de carro em frente a uma casa na qual o dono esperava no portão o seu feliz cachorrinho, um shih-tzu, fazer suas necessidades. Já chamava o pequeno para fechar o portão, sem dar qualquer mostra que iria fazer a sua parte. Era na mesma rota da caminhada. Seria, provavelmente, o 116º.
Que m... precisarmos de leis para disciplinar atos tão simples.
Que m... as pessoas eventualmente só fazerem algo tão simples apenas por medo de serem multadas.
Que m...
E os racionais somos nós.
Na próxima caminhada, não vou mais contar. Vou tentar lembrar dos campeões e vice da Libertadores desde 1960, resultados das finais, gols... ou o que aconteceu com o Rio Branco ano a ano desde 1913.
Mas sempre atento ao próximo passo.