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Claudião X CR7

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 30/08/2017-23:15:28 Atualizado em 30/08/2017-23:53:11

Claudião aqui do jornal adora polêmica. Outro dia discutíamos quais são os craques em atividade no futebol mundial, e Claudião disparou: Neymar e Messi.
Cabeças giram nos pescoços de repórteres e editores, que, de sua baía coletiva, dardejam na direção da solitária mesa de Claudião, editor-chefe e de esportes. E Cristiano Ronaldo?, todo mundo pergunta quase ao mesmo tempo.
- Cristiano Ronaldo....não acho craque.
Atestado que Claudião não estava brincando só para provocar a ira alheia, sua sanidade passou a ser posta em xeque. Cinco vezes melhor do mundo, prestes a ganhar pela sexta vez a Bola de Ouro, campeão de quase tudo, goleador implacável, decisivo, etc. e tal. Como não é craque, Claudião?
Claudião insiste, tenaz e prosaico:
- Não me encanta. Não ligo a TV pra vê-lo jogar.
Veredito da redação: Claudião tá maluco. Mesmo ante alguém aparentemente desprovido das faculdades mentais, a redação não admite, simplesmente não admite. Não é questão de opinião, não é uma coisa subjetiva, diz André, que, como quase todos aqui, é fanático por futebol. Os não fanáticos apenas gostamos bastante.
Recorremos ao dicionário.
Craque: indivíduo admirável em sua atividade. Pronto, Claudião. Acabou. É craque.
- Pra mim não é - diz Claudião, abrigando-se sob o refúgio do ponto de vista. A turma provoca, quer explicações, quer entender o ponto de vista. Por isso, pergunta:
Quem era craque antes de Messi e Neymar, Claudião? Ronaldo, Romário, Ronaldinho Gaúcho, Zico, Zidane, Maradona. Ok, ok, o óbvio. Quem mais? Müller, Careca, Alex, Djalminha, Edmundo, enumera Claudião.
Mas esses por acaso foram melhores que o CR7, vai me dizer que Müller foi melhor que o português?
- Não é isso - murmura Claudião, que aumenta ainda mais a confusão com o complemento:
- O cara que não é craque pode ser até melhor que um que é craque, mas mesmo assim não é craque.
Entendeu? Pois é. Teve revolta, azia, alarido. O que é que falta pra ser craque, Claudião, o que é que define um craque pra você?
Claudião esgravata o ar, balbucia, diz o óbvio (habilidade fora do comum, poder de decisão), mas a palavra chave não vem, e a turma se prepara para a redenção do americanense ao português do Real Madrid. Mas o que sai é:
- Magia. Falta a magia -, resume Claudião, numa singela porém complexa definição.
Comecei a pensar sob o ponto de vista de Claudião. A discussão fez a memória trabalhar. Quem é que me fazia ligar a TV pra ver um jogo? Almir, ponta-direita do Santos no começo dos anos 90. Posso estar redondamente enganado, provavelmente estou, mas Almir era craque. Giovanni, também do Santos. Edmundo, Dener, Bergkamp (lembra do gol contra a Argentina em 98?, um primor de técnica, precisão e elegância). Craques. Melhores que CR7? Não sei, mas todos me encantavam mais. Cristiano Ronaldo, além de um finalizador extraordinário, é habilidoso, é decisivo, chama a responsabilidade, é preciso como a bala de um campeão olímpico de tiro, mas... já viu o sujeito pedalando? Você vê o CR7 pedalar e ok, é tecnicamente correto, os pés passam depressa por cima da bola, até funciona, mas... é mecânico. É quase feio. É treino, e você vê que é treino. Os pés passam, não passeiam. Tem um domínio de bola fora da curva? Tem. Mas a pelota não gruda no pé, não é acolchoada, acolhida. Não enche os olhos.
Não é como ver o Giovanni ou o Rivaldo ou o Robinho dominando uma inversão de bola de 50 metros como se tivesse um travesseiro na ponta da chuteira.
CR7 conduz a bola com eficiência acima do comum? Conduz. Mas não é como ver o Messi ou o Neymar conduzindo a bola, cada passo uma ilusão de ótica e uma efusão de possibilidades improváveis.
O português tem uma precisão absurda em chutes, passes, cruzamentos? Tem.
Mas não é como o Ronaldinho Gaúcho, que transformava um simples cruzamento, um toque na bola, numa coisa que dava gosto de ver. Não é como Romário ou Ronaldo, que emprestavam a um chute qualquer, até um de bico, uma elegância rara.
Você vê o Cristiano Ronaldo jogar e fica com aquela falsa impressão de que (o que vou dizer é uma blasfêmia para um perna de pau como eu, mas vamos lá)... é possível. Parece que é possível jogar daquele jeito. Parece que foi tudo ensaiado, ensaiado à exaustão, até dar certo. CR7 é a esperança dos ruins de bola.
Aí você lembra de Messi, Neymar, Rivaldo, Ronaldo, Romário, Ronaldinho Gaúcho e tem certeza: é impossível. Totalmente impossível jogar daquele jeito.
Em um paralelo na literatura, Cristiano Ronaldo se assemelha àquele escritor que você lê e pensa (falsamente): poxa vida, dá pra fazer igual. Rubem Fonseca, Jorge Amado, Bukowski. Você inveja porque parece alcançável, é... factível.
Aí você lê Clarice Lispector, Proust, Jorge Luis Borges, Dostoiévski e, embasbacado, percebe como há um universo que separa alguns seres humanos de outros seres humanos. Você não inveja, não há possibilidade de inveja porque não invejamos o impossível. Você só contempla, e não se atreve a fazer mais nada, porque mais nada é permitido.
No futebol é a mesma coisa. Eu consigo sentir inveja do CR7, assim como sinto inveja do Hernanes, do Suárez, do Elano e de outros jogadores muito bons que já vi (embora nenhum desses da lista, fora o CR7, seja craque). Mas eu não consigo sentir inveja do Neymar, do Messi, do Rivaldo, do Ronaldinho Gaúcho (o melhor que já vi), do Ronaldo, do Bergkamp, do Dener. Eles estão em outro patamar. São outra coisa. Movem-se, dentro de campo, como se por instinto, como se aquela coisa em que eu não acredito (dom) pudesse, naquele momento, de fato existir. Assim como invejo Rubem Fonseca, mas não Borges ou Clarice. São outra coisa, simplesmente outra coisa.
E Cristiano Ronaldo não é craque por conta disso? É craque, pra mim é. É craque porque, com um futebol que é deste planeta, é o que é e faz o que faz. Mas é diferente dos outros craques, na verdade é diferente de todos os outros craques que eu conheço. Como o futebol é o terreno da subjetividade, tudo é permitido, até criar uma nova categoria entre craques e não craques. Pra tentar encerrar a discussão e não dar o braço a torcer, Claudião criou mais uma nova categoria:
- Pode-se dizer que Cristiano Ronaldo é o melhor 'não craque' que já vi jogar.
A discussão, claro, não acabou. Nunca vai.