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O vedetismo policial

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Sadraque Lima | Advogado e oficial da reserva da PM - 01/09/2017-23:16:00 Atualizado em 01/09/2017-23:46:31

A pré-estreia do filme "Polícia Federal - A Lei é Para Todos", que será exibido a partir de 07/09 nos cinemas, já permitiu aflorar alguns descontentamentos e polêmicas existentes "interna-corporis". O presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais, Luis Antônio Boudens, criticou o filme por distorcer a realidade do dia a dia das investigações, descambar para um "exagerado propagandismo dos delegados"e traçar uma imagem caricata e equivocada dos policiais federais ao desconsiderar o mérito de peritos, escrivães, agentes federais e outros funcionários, sem os quais nenhuma investigação ou operação policial seria possível.
As declarações reforçam as evidências de uma prática institucional abusiva de uma organização acostumada a fazer da atividade policial sempre um jogo de cena político-midiático que privilegia mais o espetáculo do que a operacionalidade, a durabilidade e a eficácia dos resultados. Nesse jogo de propaganda é preciso produzir cenas que atraiam a imprensa e a mídia, ações espetaculares. Tudo isso é feito por puro vedetismo policial, uma prática abusiva que nem sempre respeita os mais basilares direitos e garantias do investigado. O vedetismo policial ocorre quando, em razão do exercício de suas funções, algumas autoridades deixam o profissionalismo de lado e passam a comportarem-se como vedetes.
A palavra significa estrela, celebridade, protagonismo exacerbado, e ocorre quando essas autoridades fazem de tudo para aparecer sob os holofotes. É um comportamento reprovável porque a autoridade apressa-se a dar entrevistas coletivas, muitas vezes sem qualquer respeito ao princípio constitucional da presunção de inocência e ao necessário sigilo. É comum nessas entrevistas a antecipação de detalhes de investigações em andamento, a divulgação de dados identificadores de virtuais suspeitos, a exposição pública dos métodos empregados.
A atividade de investigação prescinde obrigatoriamente de discrição e muitas vezes até do anonimato. As ações positivas e acertadas de qualquer polícia devem ser amplamente divulgadas. Mas a propaganda desmedida e o protagonismo individual devem ser colocados sob rigoroso controle e até coibidos quando extrapola os limites do razoável.