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A agenda de Pyongyang

Opinião

José Maria de Souza Junior | Professor de Relações Internacionais da Unità Faculdade - 07/09/2017-23:44:31 Atualizado em 07/09/2017-23:41:41

Para entender as ações da Coreia do Norte em termos de sua lógica, pode-se ter três razões principais: em primeiro, o regime de Kim Jong-un precisa se manter no poder. Já é a terceira geração que domina o país de forma autocrática e continuar esse domínio é preocupação constante do regime. Em segundo, trata-se de rejeitar a forte presença americana na região em termos militares. O aparato militar no Japão e na Coreia do Sul, tanto no mar, quanto em terra, é um incômodo importante para a Coreia do Norte e até para a China. Em terceiro lugar, o regime de Kim busca se legitimar perante a mal resolvida contenda que se estende desde a década de 1950, ao final do conflito entre as duas Coreias. Neste sentido, em 1953 os dois países firmaram um armistício e não um tratado de paz, o que significa dizer que em teoria, as Coreias ainda estão em guerra.
Identificando as razões da atitude norte coreana, pode-se compreender a atuação de um estado soberano em busca de atingir seus objetivos. No entanto, os riscos dessa atitude é o que tem chamado atenção mundial. O principal móvito, é que não é interessante para ninguém ter mais um país com poder nuclear, ainda mais um país de caráter imprevisível como a Coreia do Norte. As inimizades entre Coreia do Norte de um lado e Japão e Coreia do Sul, ambos aliados dos EUA, de outro, ajudam no caráter dramático da situação. Neste sentido, um ataque ao Japão ou à Coreia do Sul representaria indiretamente um ataque aos próprios Estados Unidos e exigiriam uma retaliação.
Do lado dos EUA, o discurso impreciso e imprudente fruto da falta de conhecimento de Donald Trump acerca dos costumes e protocolos de política internacional agravam uma situação que tem sido criada e tolerada nas últimas duas décadas. Neste sentido, trata-se de uma situação que vem se agravando e que, de certa forma, não foi tratada à contento pelos EUA e pelas grandes potências, chegando ao que se observa atualmente.
Para completar o complexo cenário posto, é necessário mencionar que as decisões e os rumos tomados a partir dos dilemas apresentados passarão obrigatoriamente pelas chancelas chinesa e russa. Esses dois atores, além de membros permanentes no Conselho de Segurança da ONU, são os maiores interessados nos desdobramentos da política regional asiática e no poder relativo com o qual os EUA se colocam no desenrolar dos fatos. A intensa presença dos EUA na região incomoda a China, como já mencionado e, no que diz respeito à Rússia, o país de Vladimir Putin tem ganhado cada vez mais peso nas decisões de política internacional e pode ver com bons olhos o grave imbróglio no qual os EUA pode estar cada vez mais sem saídas.
Os cenários de um possível, mas não provável conflito são, obviamente, catastróficos. Os próximos sinais de todos os lados serão cruciais e são determinantes nos resultados que poderão ser observados. Não se tem claro se a China deixou a situação chegar onde está porque não quis ou porque não pode agir. Já a Rússia ressalta a necessidade de uma saída negociada, o que representaria uma derrota para os EUA, que tem se recusado a negociar com o regime autocrata de Kim Jon-un. De qualquer forma, se estará diante de uma realidade mais tensa e complexa a partir do fato de que o poderia bélico nuclear da Coreia do Norte é inegável.