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A estagiária e o museu

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 13/09/2017-23:48:34 Atualizado em 14/09/2017-00:07:13

Aquela desgastada máxima "posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direto de dizê-lo", atribuída erroneamente a Voltaire (na verdade foi sua biógrafa, Evelyn Beatrice Hall, quem escreveu algo semelhante), já já vai ganhar um adendo assim: "desde que não incomode ninguém".
Nesta semana, dois episódios trouxeram o aforismo à tona.
Primeiro, o Santander cancelou a exposição "Queermuseu", em Porto Alegre, após uma onda de indignação capitaneada por movimentos que alardearam que partes da mostra faziam apologia à zoofilia e à pedofilia. Claro que não era nada disso.
Mesmo assim, o banco se desculpou porque "a mostra foi considerada ofensiva por algumas pessoas e grupos". E ainda disse que seu objetivo ao financiar arte é "gerar reflexão positiva". Só faltou dizer "é nóis" e "tamo junto".
Um dos argumentos dos contrários à exposição era: "isso não é arte", como se houvesse um patamar de qualidade a definir o que é ou não arte, mais ou menos assim: coisa boa (segundo quais critérios não se sabe) é arte e ok, coisa ruim não é e ocultemos.
Fico pensando o que é que os garotos do MBL, grupo que promoveu a grita contra a exposição, diriam se lessem "Capitães da Areia" entre algumas das sessões de "Power Rangers" com as quais devem ter formatado todo seu alicerce cultural. Talvez sugerissem queima pública de exemplares da obra de Jorge Amado, que narra as aventuras da gangue de meninos de rua chefiada por Pedro Bala - e por aventuras, leia-se: roubos e estupros cometidos por moleques de dez a doze anos.
Para quem acha que os tempos hoje andam mais sombrios, lembrem: uma primeira queima pública de exemplares ocorreu na ditadura dos anos 30, quando "Capitães da Areia" foi lançado - e censurado.
Situações como a da exposição cancelada lembram Nelson Rodrigues (outro perseguido pelos moralistas), que alertou que os idiotas ainda dominariam o mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade. Porque o preocupante não é a grita do MBL, que tem o direito de berrar as idiotices que quiser. O preocupante mesmo é que as idiotices surtem efeito.
A outra revolta da semana foi provocada por um texto apresentado como crônica e publicado no Correio Braziliense.
Intitulada "A Estagiária", a narrativa retrata o alvoroço dos homens da redação quando uma estudante de jornalismo começa a fazer estágio no periódico. Na crônica fictícia (eu tenho pra mim que crônica é verdade, ficção é conto, mas essa é outra discussão; inútil, aliás), os únicos atributos da moça parecem os físicos. A obra provocou a ira de muitos por mostrar a estagiária como um vaso humano a alegrar a "fauna" masculina. Até aí, tudo comum. Quem se mete a escrever tem de aguentar as críticas e, por que não?, os xingamentos. O autor da crônica pediu desculpas no dia seguinte, disse que era tudo ficção e que na verdade queria alertar para o machismo, o assédio, etc., num remendo quase pior que o texto original. Mas não parou por aí, nunca para. A ira era endereçada não só ao autor da crônica, mas ao jornal, por ter deixado aquilo ser publicado. Surtiu efeito.
Ontem, não achei mais o texto no site do jornal da Capital federal. Segundo o Portal Imprensa, o Correio Braziliense o apagou. Queimado virtualmente. Aqui, ainda dá pra ler (goo.gl/z675PH).
Mais: o jornal publicou um editorial assinado pela editora-chefe em que lamenta o "erro" e pede desculpas aos que se sentiram "incomodados" durante a leitura, comprometendo-se a evitar deslizes semelhantes (o que, presume-se, significa não publicar mais nada que incomode).
O texto que provocou a coisa toda é bobo, caricato, vai do nada a lugar algum. Uma bobajada calcada no estereótipo da "estagiária gostosa". Como literatura, é literatura ruim, rasa, piegas. "Ah, mas você não vai me dizer que isso é arte, não está comparando esse caso com o do museu, né?"
Estou. Crônica é também um gênero literário, e se eu não estiver enganado, a literatura ainda não foi rebaixada da categoria de arte. "Ah, mas é só um texto idiota e machista." Arte ruim também é arte, lembra?
E a arte tem inúmeras funções, inúmeras. Uma delas, creio, é fazer um retrato da época, do espírito do tempo, dos tipos que habitam esse ambiente. E o texto em questão retratou, bobamente mas retratou, algo que existe, tipos que existem, um espírito real. Foi narrado sob uma ótica machista? Pessoas ficaram incomodadas com isso? Exerceram seu direito à crítica, ao xingamento, à ira. O autor passou vergonha, a devida vergonha. Nada disso bastou.
A submissão ao lugar-comum fez o jornal extirpar o texto, numa espécie de assepsia da realidade. Como se aquilo não tivesse acontecido. O texto era bobo e raso e ruim, mas não foi apagado por ser bobo e raso e ruim (fosse por isso, teria sido rejeitado antes) ou por acusar alguém sem provas, nem por fazer apologia a um crime. Foi apagado por que incomodou pessoas que o acharam machista.
Não é surpresa que isso aconteça no mesmo momento em que editoras começam a contratar leitores "sensíveis", que avaliam obras antes da publicação para dar toques em autores, toques do tipo: "ei, aqui você está sendo preconceituoso". A modalidade, que ainda é tímida no Brasil e mais forte nos EUA, surgiu depois que as editoras começaram a ter problemas com livros que estavam gerando revolta. Uma resposta à grita dos que acham que a arte tem de ser mais certinha, mais clean, mais ok. Enfim, menos arte.
Esse enquadramento é muito mais nocivo que um texto machista. Ao captar e transmitir o espírito do tempo, a literatura, o cinema, enfim, a arte, mesmo a arte ruim, nos ajudam a enxergar como as coisas eram quando não estávamos lá para testemunhar. Nas páginas de um bom romance dos anos 60, por exemplo, você vai encontrar o racismo escancarado e normalizado, porque o racismo era comum e escancarado. O machismo, idem. Arte ajuda a observar se evoluímos ou não. Permite olhar para o passado e dizer: "Nossa, era assim."
E ajuda por que, mesmo na ficção, retrata pessoas que poderiam ser reais, tais como são as pessoas de verdade, e não como deveriam ser. Agora, abrimos precedente para um perigoso novo passo rumo à arte que pretende retratar as pessoas e as coisas como deveriam ser. Tudo bonitinho, asséptico, cauteloso. Tudo irreal.
Se a coisa continuar assim, imagine daqui a uns 100 anos, quando alguém pegar alguns livros produzidos em 2030, por exemplo. Provavelmente, dirão: "Nossa, como as pessoas eram boazinhas naquela época. Como regredimos tanto?"
A arte tem mesmo inúmeras funções, mas há uma torcida grande e perigosa para que ganhe ainda mais uma: construir um mundo que não existe.